Quando eu era pequeno eu gostava muito de escrever. Nunca tive um diário nem colecionava textos, mas nas redações do colégio e nos trabalhos escritos – em papel almaço e capa de cartolina – eu exercitava com muito prazer o meu gosto pelas canetas. O auge da minha produção foi na sétima série, quando a professora de Português instituiu um correio virtual na sala para que nós escrevêssemos cartas uns para os outros. Não era algo compulsório e nem contava pontos para as notas, porque o objetivo era o puro e simples exercício da escrita . Já na primeira semana eu era o campeão de correspondências, e em pouco tempo eu não dava conta de responder para tanta gente. Eu escrevia cartas enormes, incluía fotos, enfim, era uma catarse gramatical, e todo mundo acabava mandando algo para mim para descobrir o que tanto eu tinha para contar – inclusive a professora. Fecho os olhos e me vejo na mesa da cozinha rodeado de papéis, canetas e envelopes para produzir as tais cartas.
Já com as palavras faladas eu não tinha tanta intimidade. Minha timidez sempre entrava em jogo e eu acabava usando sempre o mesmo limitado e monossilábico repertório. Eu tinha muito medo do julgamento dos outros quando abria a boca. Assim, tornei-me um excelente ouvinte, e nas horas quando eu mais precisava expressar-me eu acabava pedindo socorro ao bom e velho papel.
O tempo passou. Tornei-me engenheiro. Sim, eu também era bom com números e achei que eles trariam maiores lucros financeiros do que as palavras. Pois é, me vendi. Enfim, como todas as escolhas da vida envolvem perdas, tive que privilegiar os números. Na época da faculdade eu olhava para os meus cadernos e não acreditava que eu estava usando mais letras do alfabeto grego do que do português. Sentia muita falta das palavras escritas. Foi então que, de repente, surgiu a internet, e com ela veio o e-mail e o bate-papo virtual. Pronto. Não demorou nada para que eu tivesse alguns amigos virtuais, e logo começaram as trocas de mensagens gigantescas e diálogos quase infinitos nas salas de bate-papo. Foi um grande alívio.
Mas o tempo – sempre ele – passou mais uma vez, e eis que surgiu no horizonte a tão famosa rotina profissional. E não é que eu acabei indo parar em uma vaga de supervisão de Televendas? Sim, eu tinha que vender geladeiras por telefone, falando meia hora com cada cliente e sem poder recorrer a qualquer recurso escrito. Carta, e-mail, MSN, telegrama, fax, nada disso era permitido. Então, na marra, tive que desenvolver uma intimidade com as palavras faladas. Foi duro. Hoje eu vejo que foi um ótimo exercício, pois diminuiu a minha dependência com a escrita.
Eu acredito que tornei-me uma pessoa muito mais comunicativa do que eu era na minha infância e adolescência. Perdi o medo de falar o que penso e não ligo nem um pouco para o julgamento dos demais em relação às minhas palavras faladas. De qualquer forma, escrever continua sendo um prazer, e não há dúvida de que a minha zona de conforto é aqui, na frente de um teclado ou com uma caneta na mão.
É uma pena que eu seja muito crítico com o que eu escrevo, seja na forma ou no conteúdo. Às vezes tenho alguma idéia mas logo eu descarto-a por achar que trata-se de algo tolo ou sem importância. E, coincidentemente, hoje eu li um texto de uma pessoa que escreve maravilhosamente bem e que admitiu ter o mesmo problema de excesso de auto-crítica. Será que é porque o que escrevemos fica registrado permanentemente, e portanto não é passível de esquecimento? Escrever é uma grande responsabilidade, sem dúvida.
O bom é que aqui no meu blog só eu vejo os meus textos, e por isso posso viver à vontade esse meu fascínio pelas palavras escritas. Já essa pessoa conseguiu evoluir para um blog público. Deve ser meu próximo passo, um dia… quem sabe?